Então, dizem que o rock no Brasil surgiu na voz de uma mulher, Nora Ney, no final dos anos 50. Todavia ela apenas gravou uma versão de um rock americano, e que logo depois tratou de repudiar e voltou a cantar o que sempre cantou. Renegou o recém nascido, coitado! Mas foi outra mulher, Cely Campelo, quem acabou adotando a criança. O verbo adotar faz sentido, já que nessa época o que rolava no país eram apenas versões do rock estrangeiro. Rolavam as pedras dos anos 60 e aparece mais uma mulher, WANDERLÉA, escoltada por seus dois fiéis escudeiros: Roberto e Erasmo, e pelo grande séquito da Jovem Guarda, que incluía outras mulheres. E o rock brazuca começava a fazer barulho. Se a dupla dinâmica de escudeiros já fazia composições próprias, Wandeca ainda cantava muitas versões; mas que versões!! Hoje todas elas clássicas do rock/pop nacional. E eis que vem mais uma mulher pra pegar o bastão desse matriarcado e assumir o trono de rainha do rock brasileiro, RITA LEE; aliás, um título que ela desdenha (segundo a própria, é cafona demais, oba!). Mas enfim, o que tem de cafona nisso tudo? Rock, pop ... cafona? Pois vamos conferir. E pra ajudar na nossa investigação, vamos contar com a presença elegantíssima de
ZÉLIA DUNCAN e da famosa econtroversa BANDA CALYPSO.
Simbora, que hoje é dia de rock, bebê! ou pop? ou calipso?
Enfim, hoje é dia de cafonália!!
WANDERLÉA - "TE AMO"
WANDERLÉA Charlup Boere Salim nasceu em Governador Valadares-MG em 1946, e aos 9 anos de idade muda-se para o Rio de Janeiro, onde logo participa de alguns concursos no rádio. Em 1962 grava seu primeiro compacto e em 1963 seu primeiro álbum: "Wanderléa". Em 1965, lidera o programa "Jovem Guarda", juntamente com Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Fez enorme sucesso nos anos 60, mas a partir dos anos 70 sua carreira entra em declínio, mas continua na ativa até hoje. Este vídeo é extraído do filme "Juventude e Ternura", de 1968. Reparem que nessas músicas mais românticas, como "Te amo" e "Ternura" (já postada neste blog), é possível reconhecer uma sonoridade que se tornaria característica da geração brega 70, de Diana a Odair José (que também flertaram com a Jovem Guarda). Também é possível fazer alguma aproximação com os famosos boleros. Nestas canções, a cantora assume uma interpretação meio chorosa (Lembra do Benito?). Mas Wandeca também gravou alguns rocks tradicionais, como "Prova de Fogo" e "Sem Endereço", onde esses elementos pouco aparecem.
Wanderléa
WANDERLÉA - "MENINO BONITO"
Em 1985, WANDERLÉA homenageia RITA LEE, gravando em um compacto o rock-balada "Menino Bonito", agora com uma roupagem mais pop. A canção fora gravada por Rita em 1974, quando, após a saída dos Mutantes, ela parte para carreira solo, com o acompanhamento da banda Tutti-Frutti. A versão de Wanderléa foi tema da novela "Um Sonho a Mais". Este clipe é uma montagem (*) de cenas de um outro clipe, "Sentado a beira do caminho", com imagens de modelos masculinos. Enquanto Roberto Carlos assumiu de vez a música romântica, ou "música de motel", como diriam alguns, Wanderléa e Erasmo ainda persistiriam numa carreira mais pop, mas sem jamais repetir o estrondoso sucesso do rei. Dizem que essa música foi uma exigência da gravadora para Rita, para que incluísse uma música romântica em seu álbum de rock puro sangue. E, sem a autorização da cantora, a gravadora ainda teria incluído um arranjo meloso, que ela só ouviu depois dos discos distribuídos. Mas não há arranjo meloso que neutralize o romantismo ácido de Rita: "Lindo, mas também não diz mais nada, e então quero olhar você e depois ir embora (!!!)".
(*) Montagem disponíbilizada no YouTube por Júlio Carvalho.
Wanderléa
RITA LEE - "SEM ENDEREÇO"
E para retribuir a gentileza,RITA LEE Jones (S. Paulo, 1947) regravou "Sem Endereço", música gravada por WANDERLÉA em 1964. É uma versão de Rossini Pinto para "Memphis Tennessee", de Chuck Berry. Rita a gravou no álbum "Zona Zen", de 1988. A música, de pouco apelo popular, não chegou a fazer sucesso com nenhuma das duas cantoras, mas agrada o público roqueiro. Todavia, apesar da sonoridade mais rock, a letra desagrada o "público exigente" (pra não falar outra coisa), que a considera "bobinha" demais; assim como quase tudo que foi feito pela Jovem Guarda. Na verdade, essa ingenuidade das letras é própria da época, e isso é apenas um dos detalhes que dão esse sabor retrô que a gente tanto gosta.
Rita Lee
RITA LEE E WANDERLÉA - "PARE O CASAMENTO"
E agora, para relaxar um pouco, um cafezinho com as "alegres comadres do exército do surf". RITA LEE recebe WANDERLÉA em seu programa TV-LEEzão, onde as duas fazem uma divertida "dublagem" da primeira gravação dessa música. É o encontro de duas gerações que se sobrepõem, haja vista que Wandeca é apenas um ano e meio mais velha que Rita, mas, musicalmente, é como se viesse antes numa escala de desenvolvimento do rock no Brasil. A mineira foi expoente da Jovem Guarda, que tem sua gênese no final dos anos 50, ainda que se consolidasse com o programa de mesmo nome em 1965. Já Rita tem a Tropicália em seu DNA, movimento que ocorreu já no final dos anos 60. E Rita participava como membro de uma banda: Os Mutantes. A Rita Lee cantora e compositora se identifica, portanto, mais com os anos 70, enquanto que Wanderléa é a cara dos anos 60. Cada qual com suas qualidades, resta dizer que ambas são ma-ra-vi-lho-sas!!
Rita Lee e Wanderléa
RITA LEE, WANDERLÉA E ZÉLIA DUNCAN - "PARE O CASAMENTO"
E para se juntar às duas divas do pop/rock nacional, uma expoente de uma outra geração, a ótima ZÉLIA Cristina DUNCAN Gonçalves Moreira (Niterói, 1964). Zélia iniciou sua carreira em Brasília, onde morava, e gravou seu primeiro álbum em 1990: "Outra Luz". O vídeo é de um show de Rita em Porto Alegre, com o sugestivo nome de "Balacobaco", mesmo nome do álbum de 2003. Um encontro histórico de três gerações de mulheres fantásticas, sem qualquer tipo de estranhamento.
Rita Lee, Wanderléa e Zélia Duncan
WANDERLÉA E BANDA CALYPSO - "PARE O CASAMENTO" E "PROVA DE FOGO"
WANDERLÉA não se apresenta apenas com outras cantoras "beatificadas" pelos donos do bom-gosto nacional, mas também com aquelas que gozam de pouco prestígio; embora de muita fama, como é o caso da cantora Joelma da Silva Mendes (Almeirim-PA), e seu marido, Cledivan Almeida Farias, o Chimbinha (Belém-PA), da
BANDA CALYPSO. Esta é uma banda de calipso e brega pop, formada em 1999 em Belém do Pará, mas que faz sucesso no Brasil inteiro, já tendo vendido mais de 14 milhões de discos. Em tempos de Internet isso é uma façanha e tanto.
É muito bacana ver essa confraternização entre estilos tão diferentes.
Wanderléa e Banda Calypso
“(...) Antes as críticas eram mais violentas ainda. Hoje até que suavizaram um pouco. Mas acho que há um preconceito muito rançoso em não perceber a importância nossa, a importância do movimento Jovem Guarda. Este movimento provocou uma revolução no comportamento dos jovens. Se hoje a música brasileira está mais solta, já utiliza instrumentos eletrônicos, isto tudo deve-se, também, ao nosso movimento. Mas os críticos não enxergam isto. Colocam a Jovem Guarda como um hiato entre a Bossa Nova e a Tropicália. Ora, nós fomos este bastão que ligou a Bossa Nova e a Tropicália. Então se os críticos, de um modo geral, não se tocaram ainda, burro é que são”.
Wanderléa. Em entrevista para Fatos e Fotos Gente em outubro de 1980. (in musicapopulardobrasil.blogspot.com)
Sampleando carinhosamente as sábias palavras do velho guerreiro, repito: "eu estou aqui para confundir e não para explicar". Respondam vocês mesmos se há alguma coisa de cafona nessas cartas embaralhadas. Tudo? Nada? Algumas coisas? Sinceramente, não me preocupo nem um pouco com isso, mas me divirto horrores com esse trânsito livre entre artistas brasileiros e as distinções que diferentes pessoas se atribuem a partir de um juízo de valor estético. Gostar é ser ou ser é gostar? Deixo aqui este efeito Tostines e corro que lá vem os omi!!
O pop de hoje é o cafona de amanhã."Bokomoko" era a gíria para brega, usada pela Jovem Guarda, para se referir à música dos mais velhos, mas ela própria acabou tomando do próprio veneno com o passar do tempo. No início dos anos 60, muitos jovens brasileiros foram influenciados pelo rock americano dos anos 50 e 60, por Cely Campelo no Brasil e pelos Beatles, que lançaram seu primeiro disco em 1962. Em 1965, um programa da TV Record, intitulado JOVEM GUARDA acabou por batizar o movimento. O programa era capitaneado pelo capixaba Roberto Carlos, pelo carioca Erasmo Carlos e pela mineira Wanderléa. Era a santíssima trindade da jovem guarda, que liderava muitos outros músicos. O estilo musical passou a ser chamado de iê-iê-iê. Roberto, Erasmo e Wanderléa se tornaram popstars e a música agradava até os mais velhos, com suas canções ingênuas e fofas (para usar um jargão de hoje). As críticas negativas os chamam de alienados e fantoches do american way of life do pós-guerra, ao propagar um mundo de modas e "carangas" (carros). o filão do mercado jovem havia sido recém descoberto e a indústria se voltava para esse nicho. Há ainda a questão da ditadura instaurada em 1964, que não encontrou resistência nesse grupo, além de se beneficiar da suposta alienação juvenil.
Roberto Carlos
Erasmo e Wanderléa
A favor da Jovem Guarda, podemos dizer que até a chic bossa nova também foi chamada de alienada e de até ter algumas canções ingênuas também, como por exemplo "O pato". E quem disse que música e arte tem de ser políticas? Há quem diga que é melhor que não seja. O fato é que a Jovem Guarda marcou época e deixou marcas em nossa música.
Muitos cantores interpretavam versões de músicas estrangeiras. Mas não foi o caso dos compositores Roberto e Erasmo, que definiam a novíssima música pop brasileira, e até hoje influenciam nossa música, como veremos em postagens posteriores. Aliás, eles ainda vão aparecer muito por aqui. Para nossa alegria, a maioria dos cantores da Jovem Guarda adentram os anos 70 radicalizando o lado romântico, ou cafona, influenciando outros artistas e delineando nossa querida música brega. Vamos então receber nossos três heróis, um a um.
ROBERTO CARLOS:
Ele é até hoje chamado simplesmente de "o Rei", ou "Rei Roberto", como o chama Chico Buarque na canção "Para Todos". O epíteto tanto remete ao inegável prestígio quanto à disfarçada ironia. Nos anos 70 Roberto assume de vez o lado romântico, ou mais sério, por influência do empresário Marcos Lázaro, e se torna ainda mais popular. Vira quase uma lenda. Ele tanto agrada um público mais amplo quanto medalhões da MPB, que estão sempre regravando suas canções ou aparecendo em seus especiais de fim de ano na Globo. Agora vamos ver um vídeo da música QUANDO, composição do próprio Roberto, extraído do filme "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", de 1967. Com vocês... o meu amigo... Roberto Carlos:
Roberto Carlos
ERASMO CARLOS:
Ele era o "Tremendão", e segundo a cantora Rita Lee, o mais roqueiro do movimento. Sua parceria com Roberto é uma das mais profícuas da música brasileira. Era fã incondicional de Elvis e chegava até mesmo a se vestir como seu ídolo. Vamos então ver um vídeo de uma apresentação de1967, com a música CADERNINHO, de Olmir Stocker, com Erasmo Carlos acompanhado pelos Wandecos, a banda de Wanderléa.
Erasmo Carlos
WANDERLÉA:
A "Ternurinha"foi, segundo ela própria numa entrevista dos anos 90, a Xuxa dos anos 60. Tão famosa quanto a rainha dos baixinhos nos bons tempos. O que vestia num dia no programa da Jovem Guarda, era no dia seguinte imitado por milhares de garotas brasileiras. Também, com tanta ternura, ficava difícil resistir. Aliás, esse apelido veio do nome desta música, TERNURA, uma versão de Somehow it got to be tomorrow (a maioria das músicas que gravava eram versões de músicas estrangeiras). Vamos ver então um vídeo da musa da Jovem Guarda, extraído do filme "Juventude e Ternura", também de 1967:
Wanderléa
ROBERTO, ERASMO E WANDERLÉA:
Veremos agora um vídeo extraído do filme "Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa", de 1969, dirigido por Roberto Farias. Os três amigos interpretam a canção É PRECISO SABER VIVER. Composição de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Roberto, Erasmo e Wanderléa
TITÃS:
E para finalizar, a Banda TITÃS interpreta a mesma música, É PRECISO SABER VIVER.
Os Titãs iniciaram a carreira de sucesso nos anos 80, se auto-denominando "Os Titãs do iê-iê-iê", e tinham uma sonoridade mais pop. Mais tarde fariam um rock mais pesado, mas nunca negaram as antigas referências.